quinta-feira, 20 de março de 2008
O Tecto do Mundo
Historicamente o Tibete possuía um território com 2,5 milhões de quilómetros quadrados, formado por três províncias: Amdo (agora dividida pela RPC nas províncias de Qinghai, Gansu e Sichuan), Kham (largamente incorporada pelos chineses nas províncias de Sichuan, Yunnan e Qinghai) e U-Tsang (que, juntamente com a oeste Kham, actualmente é referenciada pela RPC por Região Autónoma do Tibete). Tem como capital Lhasa, onde se encontra o Potala, o coração do budismo tibetano.
Em 1965 foi criada pela RPC a Região Autónoma do Tibete, correspondente a menos de metade do Tibete histórico.
Actualmente a sua população autóctone, de 6 milhões de tibetanos, é ultrapassada pelos chineses Han, com uns estimados 7,5 milhões de pessoas, maioritariamente em Amdo e Kham.
É neste território que se encontra a mais alta montanha do mundo, o Monte Evereste, (ou Chomo Langma, em tibetano) e onde nascem os rios Amarelo, Yangtse, Mekong e Tsangpo; faz fronteira com a Índia, Nepal, Butão, Burma e China.
O líder espiritual do Tibete, Dalai Lama, está exilado na Índia, em Dharamsala, Estado do Punjab, percorrendo o mundo para transmitir os ensinamentos do budismo tibetano e os valores da compreensão, solidariedade, respeito e paz.
O Tibete foi ocupado pelo regime comunista chefiado por Mao Tse-Tung: na sua luta para alargar a esfera do comunismo, de sinal próprio, foi estendendo os limites daquilo que, na década de 30 do século XX, era classificado como a China Imperial, abarcando territórios vastos e dando origem ao país que hoje conhecemos como República Popular da China.
A preparação da invasão chinesa começou a ter lugar no Verão de em 1950, com um ataque relâmpago a um posto fronteiriço tibetano pelos comunistas chineses, embora já no Outono do ano anterior se tivessem verificado pontuais incursões, com o fundamento que se estava a libertar o Tibete dos “agressores imperialistas”.
A invasão do Tibete pelo Exército de Libertação Popular, começou a 7 de Outubro de 1950, com o atravessamento da fronteira por 40.000 soldados (cinco vezes mais que os efectivos do exército tibetano, mal preparados e mal armados); com os ecos desta notícia, Dalai Lama foi entronizado, antecipando-se a sua maioridade, no dia 17 de Novembro de 1950, sendo constituído líder temporal do Tibete, numa cerimónia no Palácio Norbulingka, seguida por um indulto a todos os prisioneiros em cumprimento de pena.
Face à situação de eminente tomada de poder, foram enviados mensageiros ao Reino Unido, Estados Unidos, Nepal e China: apenas os últimos chegaram ao seu destino, sendo os restantes impedidos de o fazer, sinal claro do destino que estava reservado ao Tibete.
De forma a evitar uma invasão chinesa de grande escala, foi enviada uma delegação a Pequim para dialogar com os líderes chineses; sem possuir mandato para o efeito, foi obtido um acordo a 23 de Maio de 1951 o “Acordo de 17 Pontos para a Libertação Pacífica do Tibete”, assinado entre o Governo da RPC e o denominado “Governo Local do Tibete”; mas foi o mesmo obtido de forma forçada.
Em Julho de 1954 e Junho de 1955, sempre no sentido de evitar uma invasão do Tibete, Dalai Lama visitou a RPC; mas as brutalidades cometidas pelos agressores aumentavam, e o ressentimento entre os tibetanos era crescente.
A 10 de Março de 1959 o general chinês Chiang Chin-Wu convidava Dalai Lama para um espectáculo de dança, exigindo que nenhum soldado tibetano o acompanhasse e que os guarda-costas fossem desarmados, o que fez crescer o receio na população de Lhasa, que aos milhares fizeram um cordão à volta do Norbulingka.
Este episódio conduziu à consulta do oráculo de Nechung a 17 de Março daquele ano, sendo explicitamente indicado a Dalai Lama que fugisse, conselho seguido pelo jovem, disfarçado de soldado raso, e por um reduzido séquito.
Demoraram três semanas a atingir a fronteira com a Índia, que tinha concordado em oferecer-lhe asilo (depois de uma dúbia posição de Neru, não apoiando claramente qualquer das partes).
A 20 de Junho de 1959 Dalai Lama convoca uma conferência de imprensa, repudiando o “Acordo de 17 Pontos”, criando uma série de ministérios no exílio, envolvendo os 30 mil tibetanos agrupados em campos de refugiados no noroeste da Índia.
Desde então Dalai Lama tem pautado a sua intervenção pública pela defesa da cultura e tradição tibetana, apelando a uma solução de consenso para o problema da ocupação do Tibete. Percorre todo o mundo transmitindo a sua mensagem, apelando à não-violência, mostrando a face à mão chinesa, acreditando na co-existência pacífica.
No dia 10 de Março de 1963, no exílio, foi promulgada uma Constituição do Tibete, consignando a existência de um Estado de Direito Democrático fundado nos princípios e ensinamentos de Buda, no respeito dos princípios humanos e trabalhando para a garantia do bem-estar dos seus cidadãos, renunciando à guerra (uma declaração de neutralidade).
Consagrava-se a liberdade religiosa, prevendo a igualdade de religiões perante a lei, não se elevando o budismo tibetano a religião oficial do Estado.
A propriedade de todo o solo era reservada ao Estado, que o disponibilizaria mediante pagamento de renda.
O poder executivo era investido em Dalai Lama, chefe de Estado, que o poderia delegar, salvaguardando sempre os ditames constitucionais; criava-se o Kashag, composto pelo primeiro-ministro e pelo menos cinco ministros, presidido por Dalai Lama e com a função de o auxiliar e aconselhar relativamente à administração do poder executivo.
Nos casos em que o reencarnado Dalai Lama não tivesse ainda idade para assumir ou ainda não tivesse assumido o poder; para os casos em que estava fora do Tibete; quando estivesse física ou mentalmente impedido ou quando assim o determinasse a Assembleia Nacional, por ser a decisão mais conforme aos interesses da Nação, o poder era assumido pelo Conselho de Regência.
Previa-se um Conselho Eclesiástico para as questões religiosas.
O poder legislativo era investido na Assembleia Nacional, composta: em 75% por membros eleitos directamente pelos eleitores (maiores de 18 anos); em 10% por membros eleitos pelos mosteiros e outras instituições religiosas; em 10% pelos membros dos Conselhos Regionais e Distritais; em 5% pelas pessoas indicados por Dalai Lama, escolhidos entre distintas personalidades nos ramos das artes, ciências ou literatura.
Os juízes do Supremo Tribunal eram indicados por Dalai Lama, dentro dos juízes que tivessem exercido pelo menos durante 5 anos as funções de juízes distritais, ou dentro os advogados que tivessem exercido durante pelo menos dez anos num destes tribunais.
O Estado era dividido em regiões, sendo que o poder executivo nas mesmas era exercido por um Governador Regional, auxiliado por um Governador Delegado, eleito pelos Conselhos Regionais (órgãos legislativos regionais eleitos, com competências de âmbito regional em matérias diversas como educação e saúde).
Em 1987, perante os Congressistas dos Estados Unidos, a 21 de Setembro, Dalai Lama propôs o Plano dos 5 Passos, um plano de paz para restabelecer a concórdia entre o Tibete (o histórico, reivindicado pelos tibetanos) e a RPC. Como o nome indica, eram cinco os baluartes desta proposta:
Transformação do Tibete numa zona de paz: previa a retirada das forças militares da RPC, bem como de todas as infra-estruturas militares existentes, além da retirada dos efectivos do exército indiano da região dos Himalaias.
Abandono da política de transferência de população chinesa que põe em causa a existência dos tibetanos como povo: Pequim procura uma solução final para o problema tibetano, encetando desde 1983 uma política de transferência de chineses, em grande escala, para o Tibete, a ponto de, neste momento, existirem mais milhão e meia de chineses do que tibetanos numa população de treze milhões e meio de habitantes (tomando como referência o Tibete histórico). Esta transferência em massa é um claro desrespeito pela 4ª Convenção de Genebra, de 1949, e põe em causa a sobrevivência dos tibetanos como povo, pela aculturação forçada aos valores sino-ocidentais, aliada à destruição dos costumes e tradições autóctones. Além da população, não despiciendo é a existência de 250 mil efectivos militares chineses no Tibete! E que dizer do milhão de tibetanos mortos…
Respeito pelos fundamentais direitos humanos do povo tibetano e das suas liberdades democráticas: a destruição de mosteiros e da cultura budistas tinha que ser cessada de imediato, deixando de se restringir a entrada nos mosteiros apenas aos noviços autorizados pelo Partido Comunista Chinês. E milhares de tibetanos encontram presos ou a cumprir trabalhos forçados por motivos políticos ou religiosos.
Restauração e protecção do ambiente tibetano e o abandono da política chinesa de produção de armas nucleares e despejo de lixo nuclear: o respeito pela vida de todos os seres é parte integrante dos tibetanos, independentemente da religião que professem; as florestas foram quase todas destruídas, espécies animais extintas, assistindo-se à utilização do solo tibetano como lixeira nuclear, chinesa e de outros estados, e fábrica.
Início de negociações tendentes ao estabelecimento do Estado do Tibete e das relações entre os povos tibetano e chinês: não obstante as diferenças culturais, nada justifica a não possibilidade e não intenção de assegurar uma coexistência pacífica entre o Tibete e a China e seus povos; e os obstáculos à consecução desse objectivo são, de todo, desnecessários.
Em 1989 rebentam os protestos mais violentos contra a ocupação chinesa do Tibete, que conduzem ao decretamento do estado marcial na Região Autónoma do Tibete, a 7 de Março: com início às 0 horas do dia 9 de Março, o actual Presidente da RPC, Hu Jintao, então Governador da Região Autónoma do Tibete (o primeiro não militar), instituiu a Lei Marcial, proibindo estritamente qualquer assembleia, marcha, petição, reunião ou aglomeração de trabalhadores, estudantes ou quaisquer outras pessoas, proibindo a circulação de pessoas e veículos sem autorização do governo autonómico, proibindo de qualquer pessoa, autóctone ou estrangeira, de entrar na região sem autorização expressa, e punindo de forma severa todos os envolvidos.
A revolta da população tibetana, regular e secular, provocou dezenas de mortos, obrigando à manutenção da Lei Marcial durante 13 dias. Resultava dos atropelos aos mais basilares direitos humanos do povo tibetano, decerto não sendo alheio ao clima revoltoso a publicação do Plano dos 5 Passos.
Nesse mesmo ano de 1989, é atribuído o Prémio Nobel da Paz a Dalai Lama: este recebe o prémio em Oslo, a 10 de Dezembro de 1989, em Oslo.
A 26 de Fevereiro de 1992, novas linhas mestras, traçadas por Dalai Lama, para a futura Constituição e Política do Tibete, como Estado. Que advoga um Tibete livre, rejeitando a dúbia democracia centralizada chinesa e advogando uma verdadeira democracia, com liberdade de pensamento, expressão e movimento para a população das três províncias histórias do Tibete, agrupadas na mesma entidade estatal. Um Tibete com um sistema parlamentar multipartidário, com clara separação entre os poderes executivo, legislativo e judicial, revestido de igual autoridade.
Colocando a tónica, no momento da transição, sobre os funcionários tibetanos a exercer funções na estrutura organizacional chinesa; período de transição entre a liberdade do Tibete e a retirada das forças repressivas chinesas que prepararia a entrada em vigor da nova Constituição, com um governo interino encabeçado por uma pessoa que assumiria os poderes que, no futuro, caberiam a Dalai Lama.
Ao contrário do projecto de 1963, os solos não pertenceriam ao Estado mas seriam distribuídos tendo em conta as características dos mesmos e as necessidades dos tibetanos.
O poder legislativo estaria a cargo de duas Câmaras, a das Regiões (compostas por membros eleitos pelas assembleias regionais, com um número limitado de pessoas indicadas pelo Presidente) e a dos Comuns (o corpo legislativo mais importante, composto por membros directamente eleitos pelos tibetanos), tendo os diplomas aprovados que ser promulgados pelo Presidente: este será coadjuvado por um vice-presidente, eleito pelos membros das Câmaras e assembleias regionais.
O poder executivo cabe ao governo, chefiado por um Primeiro-Ministro, pertencente ao partido ou grupo político mais representado na Câmara dos Comuns.
Cada região, cujos limites seriam demarcados pela Assembleia Nacional Tibetana, teria um Governados nomeado pelo Presidente, um governo regional encabeçado por um Ministro para a Região, eleito pela Assembleia Regional; esta teria competência para regular matéria de interesse regional.
Já nestes documentos Dalai Lama dizia que abdicava do lugar que, desde sempre e no coração dos tibetanos, a viver no exílio e fora da Região Autónoma do Tibete, budistas e não budistas, para que o objectivo de um Tibete livre fosse alcançado.
No final da passada semana, mantendo-se ainda hoje, estalou mais uma vez a revolta entre os tibetanos: tumultos surgiram em diversos pontos do Tibete histórico: Lhasa, Shigatse, Penpu, Litang, Dawu, Ganzi, Aba, Machu, Sershul, Repkong, Lanzhou, Labrang, Maerkang.
O Governo da Região Autónoma do Tibete, a 14 de Março último, responsabilizava a clique de Dalai Lama pela organização, premeditação e planeamento das sabotagens em Lhasa. Foram incendiadas lojas na baixa de Lhasa e três feridos, hospitalizados.
O Responsável do Governo da Região Autónoma do Tibete, Qiangba Pungcog, avisou que “quaisquer planos para destruir a estabilidade social ou arquitectar a secessão do Tibete são contra a vontade da população do Tibete e destinados ao fracasso”, ao mesmo tempo que informava que não havia sido utilizado qualquer arma destrutiva nos confrontos com os participantes nos motins.
Acusavam as autoridades chinesas Dalai Lama, sendo a intenção destes tumultos boicotar e prejudicar a realização dos Jogos Olímpicos de Pequim; em resposta, aquele rejeita as acusações, dizendo que é uma oportunidade de ouro para a China e para o povo chinês.
A 18 de Março, em conferência de imprensa, requereu que as acusações chinesas de ser o responsável pelos tumultos fossem investigadas, para aquilatar se o genocídio cultural a que sujeitam o povo chinês não será, ela sim, o principal causador dos problemas. Juntamente com a violação da liberdade religiosa.
Diz crer que os protestos são manifestações espontâneas do ressentimento da população, crescendo ao longo de anos de repressão, recusando a ideia chinesa de que as medidas repressivas adicionais poderão permitir o objectivo de unidade e estabilidade a longo termo.
Qin Ganag, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, referiu-se a Dalai Lama como um “falso e hipócrita líder religioso que quer a independência do Tibete.”, instando-o a desistir de qualquer intenção de um Tibete independente, visto que este é parte integrante da China.
Este, em resposta, referiu estar disponível para negociações logo que terminada a crise; mais, a solução que defende não passa por uma independência mas por uma “autonomia significativa”.
Atribuindo a origem dos distúrbios à instigação de Dalai Lama, as autoridades chinesas referem a existência, em Lhasa apenas, de 325 feridos e 16 mortos; destes treze teriam sido queimados pelos manifestantes e três morreram quando tentavam saltar de janelas e telhados, alguns de prédios a arder.
Os grupos tibetanos no exílio falam em cerca de 100 mortos causados pela intervenção das forças chinesas no território.
O anseio, por diversas vezes expressado, é conseguir um Tibete livre, uno e pacífico, seguindo a Via do Meio. E um particular de Dalai Lama, poder viver como aquilo de sempre diz ser: um simples monge.
Esteve em Portugal, em visita, tendo-se deslocado à Universidade de Coimbra: tive a sorte de poder estar presente quando saiu do automóvel que o transportava.
Um sorriso cativante. E colocou-me uma questão, a mim e a um colega, em inglês, procurando saber como estávamos e se gostávamos da nossa casa de estudo.
É impossível não sentir a especialidade do simples monge.
Sim, do Iluminado.
terça-feira, 11 de março de 2008
Experiência
Com 85 anos de idade, a sua agudeza de espírito apenas surpreende quem nunca o ouvíu. E as palavras que utiliza são o espelho fiel de uma parte significativa do modus operandi luso.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Passos concrectos
Traduz esta situação mais um episódio na constante delapidação do património histórico de Anadia, cidade e concelho.
O edifício dos antigos Serviços Municipalizados deu lugar a um espaço que possui a grande parte das lojas encerradas; e que dizer dos apartamentos?
Defendo uma perspectiva diferente.
Que passa pela manutenção dos espaços e da memória, renovando e retocando quando necessário, eliminando quando indispensável.
No espaço onde se situam as instalações do Mercado Municipal, defendo a construção de um novo espaço da e para a cidade.
Um espaço destinado a albergar os serviços públicos da Administração Central e Local.
Cumprindo a obrigação de, em 2009, Anadia ter que possuir uma Loja do Cidadão, este será o espaço ideal: juntamente com a Segurança Social, as Finanças, a Conservatória do Registo Civil e Predial, um serviço de mediação penal ou laboral (um objectivo pelo qual deve pugnar a Câmara Municipal de Anadia), ocupando dois pisos destinados a reunir, num mesmo espaço, todos os serviços de atendimento ao público.
Importante em dois sentidos: permitindo aos munícipes, sobretudo das freguesias mais afastadas da sede de concelho e de mais idade, evitar diversas deslocações em Anadia.
Mais facilmente atrair financiamento, sobretudo da Administração Central que, desta forma, consegue poupar milhares de euros em rendas.
Num terceiro piso, o piso de restauração: com um bar e um restaurante, ambos servidos por esplanada, virada para a Praça do Município, fazendo a união dos espaços.
Sendo inviável a manutenção, "qua tale", do edifício do Mercado, uma solução intermédia, passando pela preservação do arco da entrada. O átrio da entrada dando acesso a um elevador panorâmico, do primeiro ao terceiro piso, também virado para a Praça do Município.
A par da construção deste novo edifício, uma nova Praça Visconde de Seabra: eliminado o anterior jardim, a criação de um pequeno e diversificado espaço verde, complementado com a construção de um Parque da Cidade, na zona do Choupal.
Anadia anseia por um espaço verde digno desse nome: impermiabilizado o Monte Castro, colocadas lajes na Praça do Município (ainda se recordam da eliminação da Gingko Biloba?), repuxada a Praça Visconde de Seabra, atulhado o Choupal, onde estão os espaços verdes numa localidade elevada a cidade?
Também nesta matéria passos concrectos
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Enorme
Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, estando exilado na sua própria terra.
Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramaticamente mostrarmos esta extraordinária condição. Num certo sentido, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque. Quando os arquitectos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de independência, estavam a assinar uma promissória de que cada cidadão americano se tornaria herdeiro.
Este documento era uma promessa de que todos os homens veriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à procura da felicidade. É óbvio que a América ainda hoje não pagou tal promissória no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar este compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem cobertura; um cheque que foi devolvido com a seguinte inscrição: "saldo insuficiente". Porém nós recusamo-nos a aceitar a ideia de que o banco da justiça esteja falido. Recusamo-nos a acreditar que não exista dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportunidades deste país.
Por isso viemos aqui cobrar este cheque - um cheque que nos dará quando o recebermos as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América da clara urgência do agora. Não é o momento de se dedicar à luxuria do adiamento, nem para se tomar a pílula tranquilizante do gradualismo. Agora é tempo de tornar reais as promessas da Democracia. Agora é o tempo de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado caminho da justiça racial. Agora é tempo de abrir as portas da oportunidade para todos os filhos de Deus. Agora é tempo para retirar o nosso país das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade.
Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este sufocante verão do legítimo descontentamento do Negro não passará até que chegue o revigorante Outono da liberdade e igualdade. 1963 não é um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava só de desabafar, e que a partir de agora ficará sossegado, irão acordar sobressaltados se o País regressar à sua vida de sempre. Não haverá tranquilidade nem descanso na América até que o Negro tenha garantido todos os seus direitos de cidadania.
Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir as fundações do nosso País até que desponte o luminoso dia da justiça. Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No percurso de ganharmos o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de actos errados. Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio.
Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e disciplina. Não devemos deixar que o nosso protesto realizado de uma forma criativa degenere na violência física. Teremos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência.
Esta maravilhosa nova militancia que engolfou a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos nossos irmãos brancos, como é claro pela sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que os seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que sua liberdade está intrinsecamente ligada à nossa liberdade.
Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder. Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: "Quando é que ficarão satisfeitos?" Não estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos incontáveis horrores da brutalidade policial. Não poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados das fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso a um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade fundamental do Negro for passar de um gueto pequeno para um maior. Nunca poderemos estar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não pode votar e um Negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar. Não, não, não estamos satisfeitos, e só ficaremos satisfeitos quando a justiça correr como a água e a rectidão como uma poderosa corrente.
Sei muito bem que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês saíram recentemente de pequenas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de áreas onde a vossa procura da liberdade vos deixou marcas provocadas pelas tempestades da perseguição e sofrimentos provocados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor.
Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Luisiana, voltem para as bairros de lata e para os guetos das nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada. Não nos embrenhemos no vale do desespero.
Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais".
Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.
Tenho um sonho que um dia o estado do Mississipi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.
Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu caractér.
Tenho um sonho, hoje.
Tenho um sonho que um dia o estado de Alabama, cujos lábios do governador actualmente pronunciam palavras de ... e recusa, seja transformado numa condição onde pequenos rapazes negros, e raparigas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos, e raparigas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.
Tenho um sonho, hoje.
Tenho um sonho que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.
Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul. Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as dissonantes discórdias de nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.
Esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: "O meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade".
E se a América quiser ser uma grande nação isto tem que se tornar realidade. Que a liberdade ressoe então dos prodigiosos cabeços do Novo Hampshire. Que a liberdade ressoe das poderosas montanhas de Nova Iorque. Que a liberdade ressoe dos elevados Alleghenies da Pensilvania!
Que a liberdade ressoe dos cumes cobertos de neve das montanhas Rochosas do Colorado!
Que a liberdade ressoe dos picos curvos da Califórnia!
Mas não só isso; que a liberdade ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!
Que a liberdade ressoe da Montanha Lookout do Tennessee!
Que a liberdade ressoe de cada Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.
Que de cada localidade, a liberdade ressoe.
Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra: "Liberdade finalmente! Liberdade finalmente! Louvado seja Deus, Todo Poderoso, estamos livres, finalmente!"
One hundred years later, the life of the Negro is still sadly crippled by the manacles of segregation and the chains of discrimination. One hundred years later, the Negro lives on a lonely island of poverty in the midst of a vast ocean of material prosperity. One hundred years later, the Negro is still languishing in the corners of American society and finds himself an exile in his own land.
So we have come here today to dramatize an appalling condition. In a sense we have come to our nation's capital to cash a check. When the architects of our republic wrote the magnificent words of the Constitution and the Declaration of Independence, they were signing a promissory note to which every American was to fall heir.
This note was a promise that all men would be guaranteed the inalienable rights of life, liberty, and the pursuit of happiness. It is obvious today that America has defaulted on this promissory note insofar as her citizens of color are concerned. Instead of honoring this sacred obligation, America has given the Negro people a bad check which has come back marked "insufficient funds." But we refuse to believe that the bank of justice is bankrupt. We refuse to believe that there are insufficient funds in the great vaults of opportunity of this nation.
So we have come to cash this check -- a check that will give us upon demand the riches of freedom and the security of justice. We have also come to this hallowed spot to remind America of the fierce urgency of now. This is no time to engage in the luxury of cooling off or to take the tranquilizing drug of gradualism. Now is the time to rise from the dark and desolate valley of segregation to the sunlit path of racial justice. Now is the time to open the doors of opportunity to all of God's children. Now is the time to lift our nation from the quicksands of racial injustice to the solid rock of brotherhood.
It would be fatal for the nation to overlook the urgency of the moment and to underestimate the determination of the Negro. This sweltering summer of the Negro's legitimate discontent will not pass until there is an invigorating autumn of freedom and equality. Nineteen sixty-three is not an end, but a beginning. Those who hope that the Negro needed to blow off steam and will now be content will have a rude awakening if the nation returns to business as usual. There will be neither rest nor tranquility in America until the Negro is granted his citizenship rights.
The whirlwinds of revolt will continue to shake the foundations of our nation until the bright day of justice emerges. But there is something that I must say to my people who stand on the warm threshold which leads into the palace of justice. In the process of gaining our rightful place we must not be guilty of wrongful deeds. Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred.
We must forever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline. we must not allow our creative protest to degenerate into physical violence. Again and again we must rise to the majestic heights of meeting physical force with soul force.
The marvelous new militancy which has engulfed the Negro community must not lead us to distrust of all white people, for many of our white brothers, as evidenced by their presence here today, have come to realize that their destiny is tied up with our destiny and their freedom is inextricably bound to our freedom.
We cannot walk alone. And as we walk, we must make the pledge that we shall march ahead. We cannot turn back. There are those who are asking the devotees of civil rights, "When will you be satisfied?" we can never be satisfied as long as our bodies, heavy with the fatigue of travel, cannot gain lodging in the motels of the highways and the hotels of the cities. We cannot be satisfied as long as the Negro's basic mobility is from a smaller ghetto to a larger one. We can never be satisfied as long as a Negro in Mississippi cannot vote and a Negro in New York believes he has nothing for which to vote. No, no, we are not satisfied, and we will not be satisfied until justice rolls down like waters and righteousness like a mighty stream.
I am not unmindful that some of you have come here out of great trials and tribulations. Some of you have come fresh from narrow cells. Some of you have come from areas where your quest for freedom left you battered by the storms of persecution and staggered by the winds of police brutality. You have been the veterans of creative suffering. Continue to work with the faith that unearned suffering is redemptive.
Go back to Mississippi, go back to Alabama, go back to Georgia, go back to Louisiana, go back to the slums and ghettos of our northern cities, knowing that somehow this situation can and will be changed. Let us not wallow in the valley of despair.
I say to you today, my friends, that in spite of the difficulties and frustrations of the moment, I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream.
I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal."
I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slaveowners will be able to sit down together at a table of brotherhood.
I have a dream that one day even the state of Mississippi, a desert state, sweltering with the heat of injustice and oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.
I have a dream that my four children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
I have a dream today.
I have a dream that one day the state of Alabama, whose governor's lips are presently dripping with the words of interposition and nullification, will be transformed into a situation where little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls and walk together as sisters and brothers.
I have a dream today.
I have a dream that one day every valley shall be exalted, every hill and mountain shall be made low, the rough places will be made plain, and the crooked places will be made straight, and the glory of the Lord shall be revealed, and all flesh shall see it together.
This is our hope. This is the faith with which I return to the South. With this faith we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope. With this faith we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood. With this faith we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to stand up for freedom together, knowing that we will be free one day.
This will be the day when all of God's children will be able to sing with a new meaning, "My country, 'tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing. Land where my fathers died, land of the pilgrim's pride, from every mountainside, let freedom ring."
And if America is to be a great nation, this must become true. So let freedom ring from the prodigious hilltops of New Hampshire. Let freedom ring from the mighty mountains of New York. Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania!
Let freedom ring from the snowcapped Rockies of Colorado!
Let freedom ring from the curvaceous peaks of California!
But not only that; let freedom ring from Stone Mountain of Georgia!
Let freedom ring from Lookout Mountain of Tennessee!
Let freedom ring from every hill and every molehill of Mississippi.
From every mountainside, let freedom ring.
When we let freedom ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God's children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old Negro spiritual, "Free at last! free at last! thank God Almighty, we are free at last!"
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
O contributo! Com alma!
Mas mais que na moda, expressão tão verdadeira!
É-o na vida individual de cada um, como também na vida da nação.
Lutar por aquilo em que se acredita, lutar pelos ideais, pelo bem comum, pela res publica, é algo que nunca se deve perder com o vento, ou com o tempo. Dar cumprimento e seguimento aos sonhos de criança…
Esquecê-los? Nunca!
Política, à boa maneira antiga grega, e não portuguesa, é o tão simples, tão nobre e tão complexo governo da polis, da nação! Está acima de quaisquer interesses partidários e todos nós, enquanto cidadãos, temos o direito / dever de lhe dar cumprimento.
É bonito podermos fazê-lo, é maravilhoso fazê-lo, é extraordinário sentir que o fizemos!
Política com alma, sem dúvida!